Queixas Axes Market
Axes Market oferta de emprego fraudulenta

Axes Market oferta de emprego fraudulenta

Venho por este meio apresentar uma queixa contra a “empresa” Axes Market, de forma a evitar que outras pessoas caiam no esquema deles.

Passo a relatar, muito sucintamente, a minha experiência:

No início deste ano, como estava à procura de um emprego em part-time para conciliar com a faculdade, enviei o meu currículo em resposta a vários anúncios dos sites de emprego, sendo que um deles foi para a empresa Axes Market.

No dia seguinte ao envio do CV, fui contactada para uma entrevista e dirigi-me à morada que me indicaram. Chegando lá, foi-me pedido que preenchesse uma pequena ficha com os meus dados e, de seguida, passei a outra sala, onde fui entrevistada pelo “director”, um norte-americano que me fez umas perguntas muitas vagas e me bombardeou com informações acerca das funções que iria desempenhar – a entrevista, em inglês, durou uns 10 minutos, tal era a velocidade com que ele falava. Disse-me que entrevistaria cerca de trinta pessoas nesse dia e que, se fosse seleccionada, entraria em contacto comigo até às 21h para a segunda fase do processo de recrutamento.

Fui, então, contactada mais uma vez, e pediram-me que comparecesse no dia seguinte às 12h30, vestida de forma profissional mas com sapatos confortáveis, pois iria acompanhar um colaborador ao longo do dia de trabalho. Devia, para além disso, assegurar-me de que tinha disponibilidade para permanecer até às 20h.

Assim foi: no dia seguinte, fui para o “terreno” com um tal líder e mais dois colegas. O primeiro começou por me fazer umas perguntas básicas acerca da minha experiência profissional, ao que respondi que já tinha tido alguns empregos de verão em lojas e que gostava de trabalhar em contacto com o público, ao que ele me respondeu que qualquer idiota conseguia fazer vendas, e que, como estavam a recrutar um líder, a parte das vendas directas não seria determinante, e sim uma parte do processo de formação. Eu não estava recordada de me ter candidatado à função de líder(uma vez que procurava um part-time), mas, obviamente, se conseguisse algo melhor que um call center não recusaria. Posteriormente, o dito líder começou a fazer-me perguntas acerca de publicidade, e tentou convencer-me de que a venda porta-a-porta era o método mais eficaz e mais lucrativo para as empresas, dado que o produto chegava directamente a toda a gente.  Entretanto, tive ainda que responder a várias questões e adivinhas enquanto corria atrás do já referido sujeito. Tudo isto em pleno Janeiro, debaixo de uma trovoada.

Quando, finalmente, paramos para almoçar, ele desenhou um esquema da progressão dentro da empresa e das remunerações, sendo que, na primeira fase, o colaborador receberia entre 250 a 300€ por semana, passando depois a 500 e assim sucessivamente.  O horário de trabalho seria de segunda a sexta, entre as 11 e as 21h, sendo totalmente flexível para trabalhadores estudantes. Perguntei ainda se havia algum tempo de experiência (como é habitual), e ele disse-me que não, pois só contratariam a pessoa que eles tivessem total certeza de que estaria apta a desempenhar a função. Importa, a propósito, referir que me tinha sido dito no início da caminhada que estavam a recrutar apenas uma pessoa, e que poderiam não escolher nenhuma das presentes, caso não cumprissem os requisitos.

Ás 22h desse mesmo dia, encharcada e com os pés cheios de feridas, caminhei com o líder para a estação do metro. Lá, ele disse-me que eu parecia ser empenhada e com muita força de vontade, mas que não era extraordinária em nada, pelo que ele não sabia muito bem se deveria recomendar-me ao director. Perguntou, então, o que eu achava que me distinguia dos outros candidatos (que eu não conhecia), e insistiu até eu não ter mais nenhum argumento, e acabar por dizer que gostaria muito de trabalhar com eles, mas que, se não ficasse, não teria importância, já que me tinha candidatado a várias ofertas de emprego.
Axes Market
No final, fui mais uma vez ao gabinete do director, onde este, surpreendentemente, me felicitou por ter sido seleccionada e informou que deveria começar a trabalhar no dia seguinte.

Abreviando: permaneci cerca de três semanas na empresa, e saí porque, ao pesquisar o nome do director na internet, descobri que se tratava de um esquema já utilizado em vários países, nomeadamente em Espanha e no Reino Unido. A “empresa” é, constatei pela minha experiência e pelas pesquisas, uma fraude total:

– o horário de trabalho é de segunda a sábado, 12 horas por dia, com alguns minutos de pausa para o almoço (decididos pelo líder);

– não há salário-base, ou seja, só se recebe uma comissão de 20 ou 30€ sobre as vendas;

– assinei um contrato do qual nunca recebi a devida cópia, no qual declaro ser trabalhadora independente e, como tal, ter isenção de horário. No entanto, não nos é pedido que passemos recibos, e o horário é aquele que já mencionei;

– supostamente, só havia uma vaga. Porém, verifiquei que todos os dias eram recrutados dois ou três novos colaboradores. E os anúncios continuam nos sites de emprego;

– a empresa possuí vários nomes: Axes Market, InfoLivre, Codico;

– não existe a mínima noção do que significa “saturação de mercado”, uma vez que nos enviavam para a mesma zona umas duas vezes por semana. Visto que estávamos, na altura, a vender um serviço de tv+net+telefone, seria impossível fazer vendas todos os dias;

– todos os dias, durante duas horas, ficávamos fechados numa sala chamada “atmosfera” sem cadeiras e com música altíssima, a receber dicas dos líderes. Entre elas: forçar entrada nas casas das pessoas, dizer que a fibra seria obrigatória e que não estávamos a vender nada e sim a verificar se a habitação poderia receber o serviço, e induzir as pessoas a assinar o contrato, dizendo tratar-se apenas de um processo de verificação;

Saí da empresa em finais de Janeiro e nunca me pagaram as vendas que fiz durante esse período, ou seja, trabalhei de graça durante 12 horas por dia, seis dias por semana, ao longo de três semanas, à chuva e ao frio.

Entretanto, contactei o site dos Precários Inflexíveis, onde foi publicado o meu testemunho, e, desde então, têm surgido várias pessoas a relatar o mesmo tipo de experiência. Assim sendo, resolvi apresentar aqui esta queixa para que o alerta continue a chegar aos jovens.

Muito obrigada pela atenção.

By: Nélia